Ao invés de armas e bocas de fumo nos aglomerados, estudantes universitários de alto poder aquisitivo que viam no tráfico de drogas sintéticas uma forma de enriquecer em Belo Horizonte. Após meses de investigações do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico (Denarc) da Polícia Civil, a organização criminosa começa a ser desarticulada. Até agora, já foram detidas oito pessoas, que atuavam principalmente na região Centro-Sul da capital. O líder da rede, com atuação em toda a Grande BH, ainda é procurado.

Conforme o delegado Rodolpho Machado, foram realizados quatro flagrantes entre os dias 18 e 21 de junho nos bairros Santa Lúcia e Cruzeiro, além do Serrano, na Pampulha, e Dom Cabral, na região Noroeste. Com os suspeitos, foram localizadas cerca de 400 gramas de MDMA, insumo capaz de produzir até 6.000 comprimidos de ecstasy. Os policiais ainda encontraram quase 300 gramas de haxixe.

“Geralmente são usuários que começam comprando para amigos, depois passam a buscar o lucro. Apesar de não ter armas, estar presente em aglomerados, a conduta é a mesma de qualquer outro traficante”, destaca. 

Com a operação, a corporação pretende localizar o chefe da organização criminosa, mas as investigações ainda estão em curso e não foram repassadas mais informações. “Logo vamos chegar no grande distribuidor. Esse grande traficante é de difícil acesso, começamos a fazer a busca e apreensão em momentos de compra e venda de braços da associação dele”, explica Machado.

Demanda represada

Por conta da pandemia e da proibição de festas universitárias para conter o avanço dos casos de coronavírus no país, o delegado explica que a demanda em baixa nos últimos três meses fez a organização criminosa mudar a estratégia. “O tráfico sofreu um baque, já que precisa das festas para ter escoamento das drogas. Agora, os traficantes do MDMA tentam passar o produto para recebedores menores”, enfatiza.

Com isso, o insumo seguirá estocado entre os pequenos traficantes, que farão posteriormente a produção dos comprimidos. Os principais públicos para consumo das drogas são estudantes e pessoas de classe média alta. “Os suspeitos compravam desse grande fornecedor e viam a possibilidade de revender. Como o comprimido não dá para guardar por tanto tempo, mantém a droga em MDMA para aguardar algum comprador”, acrescenta.

O material, que não é produzido no Brasil, chega de forma ilícita pelos aeroportos do país. Já o haxixe tem, a maioria, origem no Paraguai, mas também há insumos do Marrocos e do Paquistão. O delegado lembra também que a maior parte da venda é realizada através dos aplicativos na internet, como o Skype.

“É muito difícil realizar um flagrante desse tipo, já que essa droga possui uma quantidade pequena e pode ser facilmente dispensada. São várias estratégias usadas para evitar essa dispensa. Geralmente são as pessoas que traficam vivem em residências de alto padrão, sendo impossível acessar o local com mandado de busca sem acionar a segurança privada desses locais”, afirma.

Os flagrantes

Segundo o delegado, o primeiro flagrante próximo a residência de um dos suspeitos no bairro Serrado, que estava adquirindo o MDMA para produzir comprimidos. Na ocasião, foram detidas duas pessoas, de 26 e 19 anos. Ainda ocorreram operações no estacionamento de um supermercado na avenida Nossa Senhora do Carmo, com a prisão de outros três jovens, entre 20 e 23 anos, que vendiam os entorpecentes.

Os policiais fizeram mais um flagrante nas redondezas de uma república no bairro Dom Cabral. O comprador do material era um estudante de psicologia da PUC, de 22 anos – o vendedor também foi detido. Por fim, mais uma prisão ocorreu no bairro Cruzeiro, perto da Fumec. “É rara uma apreensão assim, no caso. Estavam comercializando o insumo bruto”, finaliza Machado.

Fonte: O tempo